PoliciaVorcaro multiplicou depósitos do Master, cercou-se de luxo e influência e terminou no centro de uma crise que abalou o sistema financeiro
De frente para o mar em Trancoso (BA), existe uma mansão com 12 suítes e cinco bangalôs de dois andares que custa cerca de R$ 300 milhões. O imóvel chama atenção pela suntuosidade, pelo luxo que ostenta e pela arquitetura ousada. Algo bastante parecido pode se dizer sobre o dono da casa: o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo da história do Brasil.
Vorcaro cresceu em uma família modesta de Minas Gerais e, em pouco tempo, construiu, ao redor dele, uma rede de influência política que se propunha a deixá-lo impune depois de todas as fraudes que ele iria praticar para transformar o Banco Master em uma potência do dia para a noite. A ruína desse império é o que coloca a ordem institucional do país em risco, no momento.
Vorcaro viveu o luxo dele em escalas tão elevadas quanto os crimes que cometeu. Em 2023, por exemplo, gastou aproximadamente R$ 20 milhões na festa de 15 anos da filha em Nova Lima (MG), que teve Alok e The Chainsmokers. Teve uma mansão de 37 milhões de dólares em Orlando (EUA), com 17 quartos, campo de golfe e cinema. Circulou em um jatinho de R$ 80 milhões. Foi dono de 20,2% do Atlético Mineiro, investimento de R$ 300 milhões. Despachava em um escritório no metro quadrado mais caro de Londres.

Daniel Vorcaro e a namorada, Martha Graeff (Foto: Reprodução)
Ascensão meteórica
Vorcaro nasceu no dia 6 de outubro de 1983, em Belo Horizonte. O avô, Serafim Vorcaro, era imigrante italiano e pastor protestante. O pai, Henrique Vorcaro, cresceu sob influência religiosa e se tornou corretor imobiliário, fundador do grupo Multipar.
Daniel se define como filho da classe média. Os avós maternos eram funcionários públicos. O avô paterno era protético, ou seja: o ofício dele era criar, adaptar e consertar próteses e aparelhos odontológicos em laboratório. Mas, a despeito da condição financeira mediana, o rapaz teve uma educação de alto padrão: estudou na Fundação Torino, um dos colégios de elite de BH, e fez Economia no Ibmec de BH.
Vorcaro trabalhou durante os negócios imobiliários da família. Em paralelo, começou a operar fundos imobiliários com Saul Sabbá, dono do Banco Máxima, uma instituição financeira pequena e praticamente desconhecida.

Vorcaro em passeio com senador Ciro Nogueira (PP-PI) (Foto: Reprodução)
Em 2016, Sabbá ofereceu a Vorcaro participação no controle administrativo do banco. Daniel entrou como sócio minoritário e persistiu nessa condição até que o Banco Central o autorizasse a assumir o comando pleno da instituição – o que aconteceu em 2019.
Dois anos depois, o Máxima foi rebatizado e passou a se chamar Master.
Estratégia de alavancagem
Para fazer o Master se destacar entre outros bancos, Vorcaro adotou uma estratégia agressiva: dispôs-se a pagar 140% do CDI, enquanto os concorrentes pagavam 100%. A grosso modo, isso quer dizer que o dinheiro aplicado no banco dele rendia cerca de 21% ao ano. Um bom investimento no Brasil hoje rende cerca de 10%.
Entre 2021 e 2024, o Master cresceu de R$ 8 bilhões para R$ 50 bilhões em depósitos. Sextuplicou em quatro anos.
Mas havia um problema: quem paga 140% de CDI precisa aplicar esse dinheiro rendendo muito mais do que isso. O Master tinha uma solução para isso, só que era uma fraude.
A engenharia contábil tinha quatro pilares. Primeiro: o Master comprou o banco Voiter por R$ 365 milhões, mas o Voiter valia R$ 800 milhões no balanço. Pelas regras brasileiras, essa diferença pode ser registrada como lucro imediato. Foram R$ 435 milhões de “lucro” que representaram 40% do resultado do banco em 2024.
Segundo: um fundo ligado ao Master comprou 15% da Ambipar, uma empresa especializada em soluções ambientais. As ações subiram 1000% sem fato relevante. O Master vendeu no pico e embolsou R$ 700 milhões. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu investigação por suspeita de manipulação.

Daniel Vorcaro já como dono do Banco Master (Foto: Divulgação)
Terceiro: R$ 8 bilhões em precatórios, dívidas do governo que podem demorar décadas para sem pagas e que praticamente ninguém consegue vender. O Master avaliava esses ativos pelo próprio critério.
Quarto: o Master inventava carteiras de empréstimos. Dizia que tinha emprestado dinheiro a empresas X, Y e Z. Criava papéis representando esses empréstimos inexistentes. E vendia esses títulos para outros bancos como se fossem ativos legítimos.
Quando o Banco Central descobriu, o Master tentou encobrir trocando os títulos falsos por outros ativos (igualmente questionáveis).
Fim da linha para Vorcaro
Em novembro de 2025, o Banco Central constatou que não havia mais plano viável de recuperação e decretou a liquidação extrajudicial do Master, a maior intervenção bancária da história.
Horas depois, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos (SP) minutos antes de decolar rumo a Dubai. O advogado dele disse que ele ia negociar a venda do banco, mas a Polícia Federal afirma que ele tentava fugir.

Daniel Vorcaro preso (Foto: Reprodução)
O rombo e os prejuízos associados ao esquema do Banco Master são estimados entre R$ 40 bilhões e mais de R$ 51 bilhões, com impactos que podem alcançar cifras ainda maiores no sistema financeiro.
Todas as pessoas que tinham mais de R$ 250 mil aplicados no banco perderam dinheiro, já que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) garante a devolução só até esse limite de valor.
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