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Sexta-Feira, 04 de Setembro de 2026
POR: Equipe Valle
Ceres, 73 Anos: Uma História de Luta e Desafios
Ceres, 73 anos

Em 1940, o presidente Getúlio Vargas lançou a política de interiorização do país conhecida como Marcha para o Oeste, com o propósito de estimular a ocupação e o desenvolvimento do Planalto Central. Nesse contexto, surgiu a ideia das Colônias Agrícolas Nacionais, entre elas a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), criada oficialmente pelo Decreto nº. 6.882 de 19 de fevereiro de 1941. Para dirigir esse grande projeto de colonização, foi escolhido o engenheiro agrônomo Bernardo Sayão, cuja liderança, visão e disposição para o trabalho seriam decisivas para o desenvolvimento da região. A CANG tornou-se um importante polo de atração de imigrantes, especialmente de Minas Gerais, mas também de outras partes do país, contribuindo para o povoamento e a transformação do território que posteriormente ficaria conhecido como Vale do São Patrício.


Bernardo Sayão destacou-se por uma liderança baseada no exemplo. Era um homem determinado, visionário e próximo dos trabalhadores, enfrentando pessoalmente as dificuldades que surgiam na construção da colônia. Estradas foram abertas para ligar a CANG a Anápolis, enquanto o Rio das Almas representava um dos principais obstáculos à comunicação. Inicialmente atravessado por canoas, o rio passou posteriormente a contar com uma ponte improvisada de tambores. Foi durante uma dessas travessias que ocorreu uma das tragédias marcantes daquele período: o médico Dr. Álvaro de Melo morreu afogado ao tentar atravessar o rio. Segundo relatos, Bernardo Sayão estava presente e tentou salvá-lo, mas não conseguiu evitar a fatalidade.


Do outro lado do rio, surgia a Barranca, atual Rialma, formada principalmente por pessoas que não atendiam aos critérios para receber terras na CANG, desenvolvendo uma dinâmica urbana própria, marcada pelo comércio, festas e intensa movimentação aleatória. Com o crescimento da população, aumentaram também as necessidades de saúde, educação e infraestrutura. Em meados de 1946, entrou em funcionamento o hospital da CANG, consolidando o atendimento médico que anteriormente era realizado de maneira improvisada. Médicos como Dr. Jair Dinoah Araújo, Dr. Álvaro de Melo e Dr. Domingos Mendes da Silva tiveram importante participação nesse processo. A educação também ganhou espaço com a criação das primeiras escolas, contando com a participação de grupos religiosos como Batistas, Presbiterianos, Cristãos Evangélicos e Católicos.

 

Dessa maneira, a antiga colônia agrícola começava a adquirir características de uma comunidade organizada, com instituições capazes de atender às necessidades de uma população que crescia rapidamente.

 

Entretanto, o desenvolvimento da CANG também trouxe dificuldades administrativas. Os recursos enviados pelo Governo Federal nem sempre eram suficientes para atender às necessidades da colônia, e o estilo de administração de Bernardo Sayão, marcado pela praticidade e pouca tolerância à burocracia, acabou provocando conflitos. Em 1950, em meio a questões políticas e problemas relacionados à prestação de contas, Sayão deixou a direção da CANG. Sua saída, porém, não apagou sua importância na história da região. Três anos depois, em 4 de setembro de 1953, apresentando uma população de 36.672 habitantes, a comunidade foi oficialmente emancipada e recebeu o nome de Ceres, escolhido anteriormente por Sayão em referência à deusa romana dos cereais, simbolizando a forte vocação agrícola da região. O primeiro prefeito eleito do município foi o Dr. Domingos Mendes da Silva, conforme registro histórico local.

 

A cidade havia sido planejada anteriormente com a influência de Sayão, inclusive com a participação de engenheiros do Rio de Janeiro, experientes na urbanização de relevos ondulados, como é o caso de Ceres. Ao contrário da maioria das cidades, Ceres foi planejada como uma cidade moderna, uma praça central (atual Praça Cívica), com vias largas interligando ao anel viário (Av. Bernardo Sayão).

 

Nas décadas seguintes, Ceres experimentou significativo desenvolvimento econômico. A produção de cereais tornou-se importante para o abastecimento de cidades como Anápolis e Goiânia, mas as transformações ocorridas no campo, especialmente a partir da década de 1970, modificaram a estrutura econômica regional. Pequenas propriedades foram gradualmente incorporadas por grandes fazendeiros, enquanto a pecuária de corte e leiteira ganhou espaço. Paralelamente, o comércio e o setor de serviços cresceram, fazendo com que Ceres desenvolvesse novas vocações, principalmente nas áreas de saúde e educação. A cidade passou a exercer influência regional e consolidou uma identidade própria, construída ao longo de décadas de trabalho e transformação.

 

Hoje, ao completar 73 anos de emancipação, Ceres é muito mais do que o resultado de um projeto de colonização do Governo Federal. É consequência da história de milhares de pessoas que chegaram trazendo sonhos, enfrentaram dificuldades e ajudaram a construir uma comunidade. A memória de Bernardo Sayão.

 

Agricultores, médicos, professores, religiosos, comerciantes e trabalhadores permanecem presentes na posteridade da identidade do município.

 

A participação dos médicos desde a época inicial, cujas personalidades transcenderam a área da saúde, talvez seja uma das causas determinantes para que o município atualmente seja destaque regional como polo médico-hospitalar, haja vista que, além do hospital da colônia, atual Hospital São Pio X, já na década de 50, havia pelo menos dois hospitais particulares: Hospital das Clínicas Centro Goiano (Dr. Domingos Mendes) e Hospital São Lucas (Dr. Jair Dinoah).

 

Celebrar o aniversário de emancipação política de Ceres é reconhecer a saga dos pioneiros, é saber que nenhuma cidade é construída por uma única pessoa, mas pela soma de muitas mãos e muitas histórias. Ceres completa 73 anos olhando para o futuro, mas validando suas raízes, preservando a memória daqueles que abriram os primeiros caminhos e deixaram como legado uma cidade que continua sendo referência de desenvolvimento, trabalho e esperança no coração de Goiás.

 

Samir Lima Habach

 

Referência:

FERREIRA, Isac. A construção das representações simbólicas na Colônia Agrícola Nacional de Goiás-CANG (1941-1959). 2015. Dissertação em Mestrado em História. Pontifícia Universidade Católica de Goiás-PUC. 2015.

 

 

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