ReflexãoA edição da Copa do Mundo de 2026 apresentou uma mudança significativa com a ampliação do número de seleções participantes, passando de 32 para 48 países. Um dos aspectos marcantes do campeonato mundial é justamente a diversidade cultural e étnica.
Povos de diferentes origens, idiomas, costumes e tradições convivem em um ambiente de competição esportiva que, em sua essência, deveria ser pautado pelo respeito mútuo, pela dignidade da pessoa humana e autodeterminação dos povos.
A seleção brasileira foi eliminada nas oitavas de final após uma derrota por 2 a 1 diante da Noruega. A imagem carismática de Erling Haaland e de seus patriotas logo ganhou destaque pela postura serena e respeitosa com que celebraram a classificação, embora posteriormente tenham sido eliminados pela Inglaterra.
Entretanto, não é o futebol em si que merece maior reflexão, mas determinados comportamentos racistas e xenofóbicos praticados por alguns torcedores de uma seleção em especial. Não estamos falando dos atletas, tampouco generalizando um povo inteiro, mas analisando atitudes individuais que, infelizmente, têm sido registradas de maneira recorrente em jogos internacionais, amplamente divulgadas pela imprensa.
Ao observar a seleção argentina perfilada antes das partidas, um detalhe desperta a atenção, com referência à baixíssima representatividade de atletas afrodescendentes. Esse fato conduz a uma questão histórica importante: existem negros na Argentina? A resposta é sim. Embora atualmente representem uma parcela reduzida da população, afrodescendentes e mestiços participaram da formação histórica da nação argentina e exerceram papel relevante em sua independência e consolidação.
Amplos estudos históricos apontam que durante o século XIX, a elite política argentina incentivou um processo de imigração em larga escala de europeus, principalmente italianos e espanhóis, com o objetivo de promover o chamado "branqueamento" da população. Oportuno lembrar que ideias semelhantes também influenciaram políticas públicas no Brasil naquele período.
Além desse fator, a historiografia refere-se a alguns estudos que denotam evidências de elevadas perdas sofridas por soldados afrodescendentes durante as guerras da Independência e, posteriormente, na Guerra do Paraguai (1864–1870), sendo que unidades compostas majoritariamente por negros sofreram baixas desproporcionais, embora existam divergências acadêmicas quanto às razões e à existência de uma política intencional com essa finalidade.
Além desse fator, é oportuno registrar as graves epidemias de cólera e febre amarela, entre as décadas de 1860 e 1870, que atingiram especialmente os bairros mais pobres de Buenos Aires, onde residia grande parte da população afrodescendente. A precariedade das condições sanitárias contribuiu para um elevado número de mortes, intensificando a redução da presença negra visível na sociedade argentina.
Recentemente, uma turista argentina foi presa no Rio de Janeiro, acusada da prática de injúria racial contra funcionários de um estabelecimento comercial em Ipanema, o que não é um fato isolado no Brasil.
Casos semelhantes envolvendo torcedores argentinos também foram registrados em competições diversas e pontualmente, na Copa de 2026, sendo amplamente divulgados pelos meios de comunicação. Evidentemente, tais fatos não estão generalizando o povo argentino, mas expondo fragmentos comportamentais promovidos por determinados indivíduos.
Enquanto isso, a Argentina alcança mais uma final de Copa do Mundo e vence a Inglaterra por 2 a 1. Há uma rivalidade histórica que explica o nervosismo da partida e que transcende o futebol, ou seja, a Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982. Lionel Messi volta a ser protagonista, liderando a artilharia da competição e alimentando o sonho de mais um título mundial para o seu país.
Entretanto, paralelamente a essa conquista, alguns torcedores insistem em protagonizar cenas lamentáveis de discriminação racial, comprometendo a imagem construída por sua própria seleção. A Argentina irá enfrentar a Espanha na final da Copa de 2026. Indubitavelmente, a grandeza de sua nação não pode ser aferida pelo comportamento inadequado de alguns indivíduos. Entre espanhóis e argentinos, que vença o melhor FUTEBOL.
Samir Lima Habach

