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Quarta-Feira, 11 de Dezembro de 2019
POR: Equipe Valle
Morte de Josenaldo pode ser 'queima de arquivo' ou 'vingança' por ter denunciado crimes de torturas, tentativa de homicídio, estupro, prevaricação, ameaça e outros na Unidade Prisional de Ceres
Policia

O Valle Notícias não descarta que a morte de Josenaldo Vilela Araújo  de 33 anos, ocorrida na madrugada de segunda-feira (02/12), no presídio de Itapuranga, tenha sido um possivel queima de arquivo. A dinâmica do crime e as denúncias de Josenaldo que relatam possível envolvimento de diretores, supervisores e agentes prisionais em crimes de tortura, prevaricação, estupro, ameaças, corrupção e outros que ocorreram dentro da Unidade Prisional de Ceres, são elementos que, segundo apurado pela nossa reportagem, tornam possível esta linha de investigação.

 

Conforme noticiado pela Polícia Civil, Josenaldo Vilela Araújo recebeu vários golpes de uma arma branca artesanal conhecida como chucho.

 

A delegada titular de Itapuranga, Giovana Piloto, afirma que dois detentos, Winston Muller Ferraz e Ivonaldo Luis dos Santos, seguraram Josenaldo, enquanto um terceiro o esfaqueou com a arma artesanal. Todos estavam na mesma cela.

 

O Valle Noticias requereu do Ministério Público de Itapuranga pedido para apurar o crime de homicídio contra Josenaldo Vilela de Araujo como possível queima de arquivo.

 

No dia 10 de agosto de 2018, Josenaldo relatou ao Valle Notícias que por estar passando mal e insistir em pedir atendimento médico, o agente prisional Leonardo Marques Farias mirou com uma espingarda calibre 12 na região dos seus órgãos genitais e efetuou um disparo. Ferido e com intenso sangramento ele alega que somente após duas horas foi levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Ceres onde fizeram somente um curativo e em seguida levado novamente para a unidade prisional. Após quatro dias ele foi levado para o hospital onde passou por cirurgia. Por fim, ele alega que ainda ficou por trinta dias dentro de uma sela denominada latão, sem colchão, deitado no chão e sem atendimento médico sentindo dores insuportáveis.

 

De acordo com os relatos, após as sessões de torturas os presos torturados eram levados para o latão com ferimentos onde ficavam por cerca de trinta a noventa dias, sem acompanhamento médico e privado de manter contato com familiares.

 

Os fato foi denunciado ao Valle Notícias, que levou ao conhecimento do Ministério Público Federal, que de imediato acionou o Ministério Público do Estado de Goiás.

 

No dia 22/07/2018 o promotor de justiça Marcos Alberto Rios, titular da 2ª Promotoria de Ceres, instaurou inquérito civil público a partir de provocação recebida do Ministério Público Federal, ouvidoria Nacional dos Direito Humanos, solicitando do Promotor  a apuração de crimes de tortura praticada na Unidade Prisional de Ceres.

 

Pela denúncia de Josenaldo foi istaurado procedimento de investigação criminal sob PIC 20190026.1065 para apurar as supostas torturas dentro da Unidade Prisional de Ceres.

 

Com a abertura do inquérito no Ministério Público, Josenaldo passou a sofrer diversas ameaças de morte do sistema carcerário, inclusive do diretor, supervisor e agentes prisionais.

 

No decorrer das investigações ao menos dois diretores, dois supervisores e cerca de oito agentes prisionais foram afastados de suas funções.

 

De acordo com que apurou o Valle Notícias,  pelo menos 80 pessoas, a maioria reeducados na Unidade Prisional de Ceres, restou reconhecida a possível prática de tortura física, psicológica e mental, bem como duas tentativas de homicídio, entre elas, o caso do reeducando Wallison Nathan Pereira, que foi torturado por diversas vezes e sofreu tentativa de homicídio supostamente praticada por três agentes prisionais.

 

As principais provas são as lesões nos presos, muitos com feridas de marca de tiros de bala de borracha, fraturas pelo copo e mutilações devido às atrocidades praticadas pelos supostos torturadores. Grande parte das agressões foram cometidas quando os detentos estavam algemados com as mãos para trás, agachados e de costas para os agressores.

 

Veja abaixo: Gravíssimos relatos de Josenaldo sobre os possíveis crimes de torturas, corrupção, tentativa de homicídio, estupro, ameaça, abuso de autoridade e outros brutas crimes de violações aos direitos humanos por ele sofrido. Estes relatos podem ter sido a causa de sua morte dentro do presídio de Itapuranga como queima de arquivo

 

Aos 10 de agosto de 2018, às quinze horas e trinta minutos, na redação do Valle Noticias em Ceres-GO, compareceu Josenaldo Vilela Araújo, e prestou as seguintes declarações: Que, esteve preso na Unidade Prisional de Ceres,  Que a partir de então, iniciou um novo período de terror em sua vida, já que, nessa Unidade Prisional sofreu durante todo tempo, tratamento desumano incluindo-se torturas físicas e psicológicas a si e a seus colegas de cela, conforme este Jornal  poderá descobrir, se quiser de fato conhecer a verdade.

 

Mas o fato mais grave, que passa a narrar, ocorreu no dia 25/11/17; Que nessa data era um sábado e o declarante estava acometido de uma grave crise de enxaqueca e dirigiu-se às autoridades do presídio, pedindo um medicamento, porque sua cabeça doía muito; Que encontrava-se recolhido em uma cela, juntamente com outros, os quais poderão testemunhar nesta investigação, caso sejam chamados.

 

Josenaldo relata Que, o agente prisional Leonardo Marques Faria, começou a se irritar, com o declarante, diante de sua solicitação de que lhe fornecesse um medicamento para a forte dor de cabeça e passou a agredi-lo verbalmente dizendo “puta que pariu, bem no sábado, teve ontem, sexta feira, porque não teve dor de cabeça ontem caralho, dando trabalho pra mim... não tem remédio pra porra de preso não, deixa pra segunda feira ”, mas o declarante como sentia fortes dores continuou insistindo, enquanto seus colegas de cela, já temerosos de que viessem a sofrer violência como era costume, ou que fossem todos colocados no “latão”, que é uma cela de isolamento que não possui nem grades, sendo toda revestida de aço, onde os presos não tem nem colchão e só recebem alimentação básica; Que, mesmo aconselhado pelos colegas de cela a desistir, o declarante voltou a pedir remédio, porque estava sofrendo muitas dores.

 

Que então, o agente carcerário Leonardo Marques explodiu e ficou muito irado, xingando muito o declarante e dizendo “espera aí que já vou buscar o seu remédio... continue pedindo”, retirando-se do local para logo a seguir retomar com uma espingarda calibre doze, municiada com balas de borracha, efetuando um disparo contra o declarante, direcionado a sua região genital; Que o projétil fez com que três bolinhas de borracha e mais a tampa da capsula penetrassem os seus testículos; Que o declarante, caiu ao chão, já que nem sentiu mais as pernas, tamanha foi a dor, e começou a sangrar muito; Que todos os seus colegas assistiram a cena e ficaram muito assustados, mas o agente não fez nenhum disparo contra eles, já que quando viram o agente armado com a doze, correram todos para o banheiro, e o declarante que estava com as mãos na cabeça sentado na cama; Que quando se levantou por ouvir o barulho dos ferros da grade da galeria se abrindo, foi surpreendido com o disparo efetuado pelo agente Leonardo Marques, através das grades da cela.

 

Que então permaneceu ferido e sangrando dentro da cela, por toda aquela tarde; Que no fim da tarde, o diretor do presídio foi chamado; Que o diretor a o invés de encaminhar o declarante a um hospital para ser atendido fez novas agressões verbais reclamando que “estava na academia”, e que fosse ele teria dado o tiro na sua cara; Que o declarante estava algemado, em outra sala, sozinho, deitado no chão, sangrando e sentindo muitas dores, com um dos testículos dilacerado e com três projéteis de borracha e a tampa da capsula alojados dentro de si; Que Guilherme vestia bermuda, tênis e camiseta; Que Guilherme pôs os pés no rosto do declarante, quando afirmou que se fosse ele teria dado o tiro na cara do declarante.

 

Que mais tarde, foi levado até a UPA pelos agentes Claiton e Leonardo, que o havia ferido; Que na UPA, foi atendido por um médico cujo nome não sabe informar, que era um senhor de meia idade, baixinho de cabelo branco; Que só fizeram uma limpeza e o médico pediu um raio x, mas os agentes prisionais, antes que o exame fosse realizado, apressaram-se em reconduzir o declarante de volta ao presídio; Que foi colocado na cela de isolamento, ainda sangrando muito; Que permaneceu sentindo dores insuportáveis e teve muita febre; Que seu testículo foi inchando cada vez mais e ficando preto; Que os agentes ministraram-lhe uma dose de dipirona e fizeram tomar dois clonazepan; Que, com isso, o declarante veio a acordar só no domingo, sentindo muitas dores, mas permaneceu sem nenhum atendimento; Que na segunda feira, suas coxas começaram a ficar pretas e as fortes dores fizeram o declarante vomitar; Que, na terça feira,  então decidiram remeter o declarante para a UPA; Que a “irmã Darlene”, que é servidora municipal na área da saúde e realiza um trabalho religioso junto aos presos viu o nome do declarante e agilizou o exame de ultrassom, onde finalmente descobriu-se que o declarante se encontrava com três projéteis de borracha, mais a tampa do cartucho alojados em seu testículo; Que no atendimento anteriormente recebido, o declarante já suspeitava que os projéteis e o fragmento estivessem alojados em seu corpo, mas os agentes presentes no local apressavam o médico o tempo todo, mas o declarante suspeitava que estivessem tais objetos dentro de seu corpo, devido às fortes dores e ao inchaço, além do que seus colegas de cela haviam informado que as bolinhas não haviam sido encontradas na cela; Finalmente na terça feira, 28/11/17, foi submetido a cirurgia no Hospital São Pio X; Que o médico que o operou foi o Dr. Fernando Alves, um senhor alto, meio calvo, que o tratou muito bem e de uma forma muito humana; Que o declarante viu os três projéteis e a capsula que foram retirados de seu testículo; Que foram tais objetos colocados em um saquinho plástico, que as enfermeiras mostraram ao declarante e ele pediu para ficar com os objetos para ficar de lembrança, mas os agentes carcerários presentes no local Sr. Gilmar e um outro cujo nome não se recorda, pegaram o saquinho e entregaram ao supervisor senhor Rosinaldo; Que então o declarante dirigiu-se a Rosinaldo, pedindo que lhe entregasse o saquinho para guardar de lembrança, mas Rosinaldo negou-se a entrega-lo e colocou no bolso dizendo “não, isso não é assim não”; Que o declarante nunca mais viu tais objetos, que não sabe se isso foi juntado em algum procedimento investigatório ou se simplesmente foi eliminado; A propósito, informa que chegou a ser instaurada na Polícia Civil, alguma investigação, porque em certa ocasião, mais de um mês após a cirurgia, já neste ano de 2018, foi chamado a prestar declarações na Delegacia de Polícia Civil, e relatou todos os fatos da mesma forma que está agora relatando ao Valle Notícias, mas não sabe dizer o andamento daquela investigação; Que certa ocasião, já estando em gozo de sua liberdade condicional, compareceu respeitosamente à Delegacia de Polícia para saber o andamento da investigação, mas foi rudemente repelido pela Polícia Civil, na pessoa da escrivã Danielle, a qual disse textualmente que “a Polícia Civil tem coisas mais importantes para fazer do que investigar disparos em presos”; Que após a cirurgia, estando de volta ao presídio, teve instalada contra si uma sindicância, que resultou impondo-lhe penalização de trinta dias no regime de isolamento, no já referido “latão”, e mais seis meses sentenciado por mau comportamento.

 

Fazendo com que consequentemente permanecesse por mais seis meses recolhido no presídio, quando já teria direito de estar gozando sua liberdade condicional; Que no período em que esteve no isolamento, sofreu agressões físicas, tendo-lhe sido aplicada a tortura denominada “mão de vaca”, que consiste em pegar a mão do declarante, dobrando-a para dentro, forçando a articulação do pulso, causando dor intensa; Que o declarante já estava convalescendo de cirurgia e sofria dores intensas com essas agressões, que eram ministradas pelo agente prisional Leonardo Marques Farias; Que, as torturas referidas eram frequentes na Unidade Prisional de Ceres; Que o próprio declarante assistiu pessoalmente e os outros presos também, mas a maioria tem medo de denunciar e sofrer represálias; Que muitas dessas agressões já chegaram ao conhecimento da Vara de Execuções Penais de Ceres, mas o declarante não sabe informar porque jamais se realizou uma investigação séria sobre isso; Que os presos torturados tem medo de represálias.

 

Que já viu o supervisor aplicar torturas físicas nos presos, inclusive a tortura denominada “escorpião”, que consiste em algemar as mãos para trás e introduzir os pés no espaço entre os braços, fazendo com que o preso torturado sofra intensa dor física; Que Rosenaldo já aplicou o “escorpião” no preso Jairo Barbosa; Que isso foi no dia em que o declarante saiu do “latão”, que viria a ser ocupado pelo Jairo; Que enquanto se fazia o procedimento de troca dos dois presos no latão, Jairo permaneceu o tempo todo na posição de “escorpião”, sentindo fortes dores, que isso demorou cerca de uma hora, Que, narra também, uma outra ocasião em que houve uma fuga de presos, e determinado reeducando chamado Otávio Maciel, não quis fugir, permanecendo dentro da cela; Que tal fato se deu no dia 06/09/17, e que Otávio Maciel, mesmo tendo optado por não fugir, acabou sendo torturado, para que fornecesse informações detalhadas sobre a fuga em si e o paradeiro dos seus colegas de cela; Que a tortura imposta a Otávio Maciel nesse dia foi o “saco na cabeça”, que consiste em colocar uma sacola plástica dessas de supermercado na cabeça do preso, fechando na altura do pescoço, deixando asfixiado, com falta de ar, enquanto lhe dispensam socos na altura das costelas e dos rins; Que as torturas nessa data, foram aplicadas em Otávio pelo próprio diretor Guilherme, que entrou na cela “como linha de frente” firmado de uma espingarda calibre 12; Que além de Guilherme participaram da tortura o supervisor Rosenaldo e os agentes Alex e Claiton; Que, comenta-se inclusive que esse agente Claiton tenha estuprado uma detenta, a qual se encontraria grávida na atualidade; Que o declarante não sabe dizer o nome de tal detenta, nem se ela se encontra presa ainda; Que ela é uma branquinha, bonita de corpo, e que acabou recebendo benefício de sair da cela e trabalhar na limpeza; Que todos os detentos foragidos no dia 06/09/17, acabaram sendo recapturados e Claiton após o seu retomo, dirigiu-se a todos fazendo insultos e pressões psicológicas, enquanto dizia que aquela era uma nova data para a Unidade Prisional de Ceres; Que, nos trinta dias em que cumpriu pena de isolamento, enquanto convalescia do ferimento nos testículos, foi agredido fisicamente pelo agente Leonardo Marques, que lhe fazia “mão de vaca”, e era ofendido moralmente pelo supervisor,  pelos agentes e pelo próprio diretor.

 

Que abria a janelinha do latão, por onde passa a comida, punha o rosto e rindo para os seus subordinados perguntava para Josenaldo “e aí, Josenaldo, quer remédio? Pede mais remédio” e todos riam; Que os presos foragidos e recapturados, todos foram severamente torturados naquele dia.