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Quarta-Feira, 21 de Setembro de 2016
POR: Equipe Valle
Serra da Mesa vive seca histórica e faz antiga ponte ficar a 10m da superfície
Sem Categoria

 

O maior reservatório em volume de água do País em metros cúbicos (m³) passa por uma das piores secas da história. Os acostumados em ver o lago Serra da Mesa cheio encontram hoje grandes árvores secas, que devido ao tempo de exposição ao sol após submersas ganham formas macabras. Pelo menos esse é o panorama que se tem da região banhada por Uruaçu, a 290 quilômetros de Goiânia, ao Norte do Estado.

 

E foi de barco que o Jornal  percorreu parte dos 1.874 quilômetros quadrados de área inundada e conferiu o que a falta de chuvas tem provocado. São 54,4 bilhões de m³ concentrados no lago, operado por Furnas. A usina localizada em Minaçu, ao extremo Norte, é responsável pelo abastecimento elétrico em Goiás e, principalmente, no Distrito Federal.

 

Com um tamanho 37 vezes maior que o Lago Paranoá, em Brasília, o reservatório é o quarto maior lago do País. E Antônio Machado de Almeida, o Toninho Pescador, conhece bem aquelas águas. Apesar de não ser nativo — ele é natural Esperantinópolis, no Maranhão —, o ribeirinho chegou ao município na segunda metade da década de 1990 para trabalhar no garimpo de ouro na região. Presenciou a grande seca na virada de 2000 para 2001, quando a antiga ponte foi descoberta.

 

Ex-presidente da Colônia dos Pescadores Z-04, Toninho informa que o nível máximo de armazenamento é de 460 metros e que a última cheia ultrapassou 1,50 metro do limite. “O nível máximo de operação é de 417,30 metros”, pontuou. Segundo relatório sobre a situação dos principais reservatórios do Brasil divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico na quinta-feira (8/1), a água está a 435,58 metros, com um volume 30,8% de volume útil. É importante observar que a seca pode não parecer grave, mas é, já que o lago é grande em extensão.

Toninho Pescador presenciou seca que expôs antiga ponte

Toninho Pescador presenciou seca que expôs antiga ponte / Foto: Delcio Gonçalves

 

Com a situação, é preciso atenção ao navegar pelas águas de Serra da Mesa devido aos inúmeros troncos na superfície. A surpresa se deu após os primeiros dez quilômetros percorridos. Saindo da margem que cobre a pista submersa que levava a antiga ponte, onde ficam flutuantes que servem saborosos pescados, até a Cachoeirinha, pequena queda d’água que vem do leito do Rio Passa Três.

 

A seca expôs barrancos que impedem o barco de chegar até o encontro das águas. É possível chegar apenas a pé, depois de cerca de 200 metros de caminhada. A água gelada é reduto noturno de tilápias — designação comum de várias espécies de peixes de água doce, nativos da África. Por água, também é impossível chegar até a ponte por onde passam os trilhos da Ferrovia Norte-Sul. Outro pescador local, dono de um flutuante, mediu recentemente a distância da ponte encoberta até a superfície: apenas dez metros.

 

Entre uma localidade e outra, a grande quantidade de bovinos se destaca, que pastam na grama recém-nascida à beira do lago. Pássaros de diferentes espécies sobrevoam a água em busca de alimento. E outros pescadores, muitas das vezes, não são tão receptivos à presença de um fotógrafo na região. Temem serem denunciados pela pesca predatória; mas este serviço fica a cabo da polícia ambiental.

Pescador Elizeu Nascimento vigia tanques-redes de casa de palafita

Pescador Elizeu Nascimento vigia tanques-redes de casa de palafita / Foto: Delcio Gonçalves

 

E o vento matinal provocado pelo movimento da canoa e o respingar da água no corpo enganam: o sol forte parece perfurar a pele. E para quem não tem costume, a indicação é usar filtro solar. A superfície da água também ferve: a última medição chegou a 37 graus. Entre o trepidar da canoa causado pelas ondas de outras embarcações e a lâmina de água que reflete o azul do céu, chega-se ao que Toninho Pescador classificou como “a vista do E.T.”. “Vamos na casa de um maluco, de onde avista o disco voador (sic)”, brinca Toninho. Explico: ele se refere à casa de palafita construída (sozinha) por Elizeu Ferreira do Nascimento. Em um espaço de 7×8 metros quadrados, o pescador vigia, do alto dos 37 degraus e dois lances de escadas, o pássaro conhecido como soló. De madrugada, a ave atormenta as tilápias criadas em seus tanques-redes, chegando a matá-las.

 

Cada estrutura, cercada por redes de cor verde, tem 2,2×1,70 metros e comporta cerca de 600 peixes, pegos ainda com seis meses de vida. Depois de um semestre, já estão prontos para o abate. A criação é autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e gera renda aos ribeirinhos. Outros grupos também criam o pescado e estão ligados à Cooperativa dos Piscicultores do Lago Serra da Mesa (Cooperpesca) e à Associação dos Comerciantes e Barqueiros Artesanais do Lago Serra da Mesa (Acbalse). A primeira tem 33 cooperados; o total de pescadores que atuam na região é de 150.

 

O ponto final do percurso trouxe alívio ao corpo. Entre uma colher de farofa de carne moída e outra, a sombra de um dos pilares da ponte nova — finalizada em fevereiro de 1997, que liga Uruaçu a Niquelândia — serviu para aliviar a luz do sol que queimava a derme. De lá, é possível ver, de longe da água, a marca de uma das maiores cheias já vistas. Em resumo, o sentimento de Toninho e de colegas que têm o lago como centro da vida é de tristeza. “Traz pra gente um aperto, pois o movimento de turistas é menor nessas condições, o que acaba interferindo na renda (sic)”, avaliou.

 

O desejo não só dos ribeirinhos atingidos pela barragem, mas de todos os moradores de Uruaçu e região é que a estiagem cesse. E, assim, o manancial formado principalmente por águas dos rios Tocantins, das Almas e Maranhão possa voltar a ser como antes, pois o volume expressivo de água atraiu investimentos na área do turismo. E que a cena vista dos flutuantes, com as ilhas impedindo a vista da nova ponte, se transforme em água e demore a se repetir. Boa leitura, São Pedro!

lago serra da mesa cheia jan 2010

Lago em época de cheia, em janeiro de 2010 | Foto: Marcello Dantas

lago serra da mesa ponte nova mar2009

Em março de 2009, água escondia ilhas, hoje expostas | Foto: Marcello Dantas

 

Vista da ponte nova, em julho de 2010 | Foto: Marcello Dantas